Nada se perde, tudo se transforma: o mar como motor de inovação e desenvolvimento sustentável

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Nada se perde, tudo se transforma: o mar como motor de inovação e desenvolvimento sustentável

O mar como resposta aos desafios da sustentabilidade

A bioeconomia azul assume hoje um papel cada vez mais estratégico na resposta aos desafios ambientais, económicos e sociais associados à valorização sustentável dos recursos marinhos. Em Portugal, um país com uma forte identidade marítima e um vasto potencial científico e tecnológico ligado ao oceano, começam a surgir exemplos concretos de como a inovação pode transformar problemas estruturais em oportunidades de desenvolvimento sustentável. A atuação da B2E – Associação para a Bioeconomia Azul – Laboratório Colaborativo e, em particular, o projeto Fish Matter, são exemplos claros desta transformação.

B2E CoLAB: ciência, inovação e mercado ligados pela bioeconomia azul

Criada em 2020, a B2E CoLAB é uma associação privada sem fins lucrativos que integra a rede nacional de Laboratórios Colaborativos reconhecidos pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e monitorizados pela Agência Nacional de Inovação (ANI). A sua missão passa por aproximar a investigação científica, o conhecimento tecnológico e o tecido empresarial, ao promover assim a criação de produtos e serviços inovadores no âmbito da bioeconomia azul. A atuação da B2E centra-se sobretudo em três áreas estratégicas: recursos marinhos naturais, biotecnologia marinha e aquacultura sustentável. Enquanto laboratório colaborativo, a B2E assume-se como uma plataforma de ligação entre universidades, centros de investigação, empresas e entidades públicas, ao contribuir para a transferência de conhecimento e para a valorização económica de recursos marinhos de forma sustentável. A sua participação em projetos financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), nomeadamente no âmbito do Pacto da Bioeconomia Azul, reforça o papel que desempenha na concretização das políticas públicas orientadas para a transição verde e para a economia circular.

Quando o que é visto como resíduo é, afinal, um recurso

É neste enquadramento que surge a plataforma Fish Matter, um projeto estruturante que procura responder a um dos grandes desafios do setor das pescas e da transformação de pescado: a subvalorização dos coprodutos gerados ao longo da cadeia de produção. Cabeças, espinhas, peles, vísceras ou conchas são frequentemente encarados como resíduos, quando, na realidade, encerram um elevado potencial de valorização económica e científica. Estes materiais são ricos em compostos como proteínas, colagénio, ácidos gordos ómega-3 e biopolímeros, podendo ser utilizados em setores como a indústria alimentar, nutracêutica, cosmética, farmacêutica, biomateriais ou até na moda sustentável. A sua valorização representa uma oportunidade clara para reduzir desperdícios, aumentar a eficiência dos processos produtivos e criar novas cadeias de valor.

Fish Matter: a plataforma que liga problemas, soluções e oportunidades

A Fish Matter é uma plataforma digital inovadora que funciona como um sistema inteligente de ligação entre quem gera coprodutos e quem dispõe de tecnologias e capacidade para os transformar em novos produtos de valor acrescentado. Através de uma lógica de “matchmaking”, a plataforma identifica oportunidades de sinergia entre diferentes atores do ecossistema da bioeconomia azul, promovendo a criação de novas cadeias de valor e o reforço da economia circular. Para além desta função central de intermediação, a Fish Matter integra uma base de conhecimento que reúne informação técnica, científica e regulamentar relevante para os operadores do setor. Este aspeto é particularmente importante, pois contribui para a capacitação das empresas, ao promover uma abordagem mais informada e estruturada à valorização sustentável dos coprodutos marinhos. O acesso à plataforma será gratuito, mediante registo, estando a sua disponibilização ao público prevista para breve.

Da economia circular à mudança de mentalidade no setor do mar

A relevância da Fish Matter não se limita ao seu caráter tecnológico. O projeto representa uma mudança de paradigma na forma como se encara o desperdício no setor marítimo. Ao invés de um problema ambiental e logístico, os coprodutos passam a ser entendidos como recursos estratégicos, capazes de gerar valor económico, promover a inovação e reduzir a pressão sobre os ecossistemas naturais. Trata-se de um exemplo claro de aplicação prática dos princípios da economia circular no contexto da bioeconomia azul, demonstrando como é possível alinhar sustentabilidade ambiental, competitividade económica e desenvolvimento tecnológico.

Um motor de desenvolvimento para os territórios costeiros

Esta abordagem tem especial importância para territórios que, direta ou indiretamente, se relacionam com a economia do mar e das pescas. Iniciativas como a Fish Matter mostram que a inovação não está apenas associada a grandes centros urbanos ou a polos tecnológicos altamente especializados. Pelo contrário, podem constituir oportunidades reais para a dinamização económica de territórios costeiros e ribeirinhos, promovendo o surgimento de novas atividades, a diversificação económica e a criação de emprego qualificado.

Bioeconomia azul e desenvolvimento local: o papel dos GAL

Para os Grupos de Ação Local, como o GAL Douro Atlântico, este tipo de projetos constitui uma referência relevante. Demonstra que o desenvolvimento local sustentável pode resultar da articulação entre tradição e inovação, valorizando recursos existentes através do conhecimento científico e tecnológico. A bioeconomia azul surge, assim, como um vetor estratégico para promover modelos de crescimento mais equilibrados, resilientes e alinhados com os objetivos de sustentabilidade ambiental, ao reforçar a ligação entre os territórios e as novas oportunidades económicas associadas ao mar.

Nada se perde, tudo se transforma: do conceito à prática

“Nada se perde, tudo se transforma” deixa de ser apenas uma expressão inspiradora e passa a assumir um significado concreto. Através de iniciativas como a Fish Matter e do trabalho desenvolvido pela B2E CoLAB, o mar afirma-se como um verdadeiro motor de inovação e desenvolvimento sustentável, mostrando que é possível criar valor económico enquanto se protege e respeita o património natural.